II Encontro Científico da REGUA

O II Encontro Científico da REGUA foi apresentado de maneira virtual dos dias 21 a 23 de julho de 2021. Os assuntos foram divididos em Fauna, Flora, Monitoramento e Planejamento Ambiental, Restauração Ecológica e Saúde e Meio Ambiente.

Jorge Bizarro, da coordenação de pesquisas da REGUA abrindo o II Encontro Científico (©REGUA).

Foram convidados a participar os pesquisadores que estão realizando seus trabalhos aqui na REGUA, assim como pesquisadores que já terminaram suas pesquisas, além de pesquisadores e palestrantes relacionados aos órgãos ambientais e membros de outros projetos apoiados pelo programa Petrobrás Socioambiental, que fazem parte da REDAGUA – Rede de Conservação pelas Águas da Guanabara.

O evento foi um desafio para todos, especialmente porque tudo foi feito de maneira remota e transmitido ao vivo pelo canal do Youtube do Projeto Guapiaçu. Mesmo assim, tivemos muita interação através do chat (caixa de diálogo no canal Youtube) durante as apresentações. Além dos palestrantes do dia, 35 vídeos de demais pesquisadores foram disponibilizados neste canal (https://www.youtube.com/c/ProjetoGuapia%C3%A7u/playlists).

Tivemos a contribuição de muitos trabalhos interessantes! Um deles diz respeito ao estudo de alternância do estado dos nossos wetlands, que têm apresentado águas mais turbas devido à presença de algas do tipo Euglena sanguinia, que podem produzir um tipo de toxina prejudicial aos peixes.

Egeria densa, um tipo de alga presente nos alagados da REGUA, que pode ser tóxica para os peixes (© Micaela Locke).

Essa alga também impacta o desenvolvimento de uma macrófita submersa, a Egeria densa que tem um papel importante no equilíbrio dos ambientes aquáticos, pois além de produzir oxigênio – que é liberado na água, serve de alimento para muitas espécies de peixes, aves e mamíferos. Além disso, funciona como abrigo para microrganismos planctônicos – micro-crustáceos e alguns tipos de moluscos. Um outro trabalho bacana nos mostra a constância ao longo de 10 anos de pesquisa sobre as diversidade de quirópteros (morcegos) presentes na REGUA.

No bioma Mata Atlântica existem 78 espécies de morcegos e na REGUA já se somam 43 espécies.

A espécie de morcegos Carollia perspicillata, a mais abundante na REGUA . C. perspicillata se alimenta de uma grande variedade de frutos, assim como néctar e pólen, e também insetos. (©Priscila Stefani)

Em geral, os morcegos contam com uma eco localização bastante apurada, que os fazem perceber as redes de neblina com muita facilidade. Já os morcegos insetívoros, contam com uma sensibilidade ainda maior, tornando-os mais difíceis de serem capturados, e por isso, os esforços de inventário devem continuar. Outra iniciativa interessante é o Biocenas – Núcleo de Fotografia Científica Ambiental –, que vem coletando imagens dinâmicas e estáticas na REGUA desde 2010, com o objetivo de utilizar a percepção visual como forma de aproximar o homem com o meio que o cerca. O acervo conta com 4.500 imagens e este material tem sido identificado e disponibilizado para fins de educação e pesquisa, além da compreensão da biodiversidade local. Recentemente foi publicado o Guia de Campo da Biodiversidade da Fauna na Reserva Ecológica de Guapiaçu.

Temos outras diversas contribuições que serão apresentadas regularmente através das nossas mídias sociais, que confirmam a importância da REGUA em estar incentivando a pesquisa na região.

Agradecemos à Equipe do Projeto Guapiaçu por ter organizado este incrível Encontro Científico e espero que todos tenham aproveitado este pequeno espaço de conhecimento.

Tem bebê novo de anta na área!

Em 2020 as antas Eva e Valente nos deram Curumim, o primeiro filhote de anta nascido no estado do Rio em 100 anos.

Segundo filhote de anta nascido em liberdade na REGUA (© Marcelo Rheingantz/Projeto Refauna).

Esse ano, que alegria, Flora e Júpiter nos deram mais um bebê anta! Com essa segunda antinha, nossa população está crescendo. Isso nos enche de orgulho e confiança num futuro onde as florestas da Mata Atlântica voltarão a ter antas em abundância.

Flora e Júpiter foram soltos em 2018, vindos do Parque Ecológico da Klabin, e desde então nunca estão muito longe um do outro (apesar de andarem sós, como é normal para antas).

No vídeo de armadilha fotográfica vocês veem mamãe Flora e o filhote, que deve ter por volta de 6 meses. Ainda não sabemos seu sexo, e ele provavelmente nasceu em janeiro, como o Curumin ano passado.

Sabemos disso graças ao monitoramento que fazemos junto com o @projetoguapiacu, nosso super parceiro na empreitada de reintroduzir as antas aqui na REGUA.

Esperamos que a notícia dessa nova vida aqueça o coração de vocês!

As árvores da Mata Atlântica: a Braúna (Melanoxylon brauna)

A Braúna em uma das áreas reflorestadas pela REGUA (©Raquel Locke)

A braúna é uma espécie arbórea endêmica da Mata Atlântica, pertencente à família Leguminosae, encontrada no sul do estado da Bahia, Espírito Santo, São Paulo, Minas Gerais e Rio de Janeiro. Seu estado de conservação na categoria “Vulnerável” pela IUCN remete ao uso intensivo da sua madeira compacta e pesada na indústria civil assim como na confecção de instrumentos musicais, cabos de ferramenta, postes e mourões. A braúna é uma espécie semi-decídua, heliófita, encontrada em florestas tanto primárias como em florestas secundárias tardias. Sua dispersão se dá pela ação do vento (anemocórica).  Este exemplar se encontra na área do “Francês”, que são nossos vizinhos e parceiros.

Braúna em flor (©Raquel Locke)

 

O Tapiti (Sylvilagatus brasilienses)

Encontrado em todos os biomas brasileiros, com exceção de uma parte da Amazônia, este simpático mamífero tem hábitos noturnos e solitários, pois como é alimento para diversas espécies, como onças-pardas, jaguatiricas, algumas serpentes, entre outros animais, possui o hábito de viver em silêncio e com muita discrição.

São animais herbívoros e sua dieta consiste na alimentação de frutos, brotos e talos de vegetais. Estes coelhos fazem o ninho com folhas ou capim seco, forrando o interior com seus próprios pelos para criar seus filhotes e costumam dar à luz entre um e seis filhotes.
Alguém já pensou que o coelho é um roedor? Pensamos que essa pode ser uma confusão normal, porém para a ciência, o que mais difere os coelhos dos roedores é a dentição: eles possuem quatro dentes incisivos (dois superiores e dois inferiores), já os roedores têm apenas dois. Além dos coelhos possuírem lindas orelhas compridas!

O Tapiti flagrado por uma armadilha fotográfica (©Projeto Refauna)

Conheça as mariposas perfuradoras de frutas!

A maioria das mariposas se alimentam do néctar de flores e assim se comportam como polinizadoras. Uma outra parte vive poucas horas ou dias e acumulam gordura na fase larvar, pelo que os adultos mal se alimentam,bebendo apenas água. No entanto, vários grupos da família Erebidae (ex-Noctuidae latu sensu + Arctiidae) são frugívoras, se alimentando de frutas maduras em inicio de decomposição. Elas incluem o conhecido e popular gênero Catocala da região temperada setentrional, que podem ser atraídas pincelando purê de frutas sobre cascas e troncos de arvores.

Eudocima sp.  (© Micaela Locke).

Alguns gêneros da subfamília Calpinae se especializaram em perfurar a casca de frutas intactas com a espiritrompa, peça bucal tipica de 99% dos lepidópteros adultos, que neste caso possui uma extremidade pontiaguda e farpada, propiciando que a mariposa possa perfurar a casca da fruta a sorver o suco dela, sendo algumas delas consideradas pestes de pomares de frutas cítricas.

Na nossa região ocorre o colorido gênero Eudocima, de distribuição Pantropical (com especies em todas as regiões tropicais) exemplificado pelo individuo aqui flagrado sobre uma fruta caída no solo.

Finalmente, a titulo de ‘curiosidade’, a Natureza foi um pouco mais alem e as modificações da espiritrompa que possibilitaram a perfuração de frutas intactas, com alguns aperfeiçoamentos, permitiram o aparecimento de algumas especies hematófagas no Sudeste asiático capazes de perfurar a pele de mamíferos para se alimentarem do sangue de animais de grande porte, inclusive o gado local. São as mariposas ‘vampiras’ do gênero CalyptraO tipico nesse gênero asiático é se alimentar da secreção lacrimal desses animais, mas uma meia duzia de especies se especializaram na hematofagia, que nem os pernilongos.

Corujinha-sapo (Megascops atricapilla)

A corujinha-sapo (Megascops atricapilla) fotografada por Adilei Cunha.

A corujinha-sapo (Megascops atricapilla) pertence a familia Strigidae que compreende todas as espécies de corujas do Brasil com exceção da coruja-da-igreja (Tyto furcata). A corujinha-sapo está presente no Sudeste do Brasil, no norte da Argentina e no leste do Paraguay. Segundo a classificação da IUCN sua categoria é de Pouco Preocupante (LC). De hábito crepuscular, como o da maioria das corujas, se alimenta de insetos variados, de roedores, de pequenos mamíferos e de aves de tamanho reduzido. Utilizam cavidades ocas de árvores e ninhos abandonados para nidificar. Estas corujinhas estão associadas com as florestas Ombrófilas densas bem preservadas.

Este registro foi feito por Adilei Cunha, que ouvia o seu canto há alguns dias, próximo à sua casa, decidindo uma noite aventurar-se pela mata à sua procura!

Treinamento para os guarda-parques da REGUA

Eduardo Rubião liderando o grupo de guarda-parques da REGUA até uma das áreas de reflorestamento realizados pela REGUA (© Micaela Locke).

Durante o mês de maio, o curso de treinamento dos guarda-parques da REGUA estará sendo liderado pelo médico veterinário Eduardo Rubião, fundador da Consultoria ambiental Phoenix. Através da Instituição Rain Forest Trust será possível realizar estes encontros, que visam aprimorar o trabalho de proteção e conservação da REGUA na bacia do rio Guapiacu.

O papel vital dos guarda-parques como guardiões do patrimônio ambiental e sua relevância para a sociedade, primeiros-socorros, unidades de conservação e suas diferentes categorias, monitoramento de trilha e a sua sinalização são alguns dos tópicos que serão abordados durante o curso. A presença dos guarda-parques na REGUA garante a integridade e manutenção da biodiversidade e os serviços ecossistêmicos por ela providos.

Eduardo Rubião mostrando na prática como lidar com serpentes (© Micaela Locke).
Mateus Cardoso entusiasmado em olhar por dentro de um Jequitibá, uma das maiores árvores da Mata Atlântica (© Micaela Locke).

Desafio da Natureza Urbana 2021: Baía de Guanabara, RJ, Brasil.

Micaela, Eric e Nicholas se preparando para o Bioblitz (© Thomas Locke).

Participamos do Desafio da Natureza Urbana 2021: Baía de Guanabara, RJ, Brasil, que durou do dia 29 de abril até o dia 03 de maio. Contamos com a visita do Eric Fisher, que teve um importante protagonismo neste desafio.

O objetivo desta Bioblitz foi registrar a maior quantidade de organismos (animais, plantas, fungos e musgos) possível, além de estarmos fazendo parte de uma DISPUTA mundial, entre mais de 400 cidades e regiões de 40 países dos 5 continentes, em que poderemos mostrar a grande diversidade biológica existente nos ambientes aquáticos (manguezais, lagoas e mar), nas planícies e montanhas (mata atlântica e restinga) e nas áreas urbanas (residências, jardins, ruas, praças, praias, parques e jardins) da região em que estamos inseridos.

Eric e Nicholas em busca de insetos (© Micaela Locke).

Foram feitas cerca de 2.1400 observações, com a participação de 88 entusiastas da Natureza e identificação de 880 espécies até o momento! Não pudemos abrir este evento ao público devido à pandemia, mas não queríamos deixá-lo passar em branco tampouco. Já contamos com ótimas observações e estamos entusiasmados em continuar praticando a ciência cidadã, através do Inaturalist.

 

Link do projeto: https://www.inaturalist.org/projects/desafio-da-natureza-urbana-2021-baia-de-guanabara-rj-brasil

As Borboletas Malaquita

Siproeta stelenes meridionalis (Fruhstorfer, 1909)

Siproeta stelenes  (© David Geale).

Por alguma razão, o verde não é uma cor comum ou popular entre as borboletas neotropicais. Ao contrário de outras regiões tropicais do Velho Mundo, ocorrem apenas uma dúzia  de borboletas esverdeadas nos trópicos americanos (alguns licenídeos dos gêneros Cyanophrys, Evenus, Arcas, Erora, alguns papilionídeos e Nessaea).  entre elas o exemplo mais chamativo é a enorme borboleta verde malaquita, com linhas marrom e grandes asas quadradas de margens denteadas. Esta borboleta é uma imitação dos heliconídios (borboletas de asa longa) Philaethria wernickei e P. dido, das quais virtualmnte se distingue apenas pelo maior tamanho, asas menos alongadas e a margem  externa da asa posterior fortemente serrilhada com 3 pequenas indentações.

Philaethria wernickei  (© Antonio Lopes).

É uma espécie comum encontrada em uma vasta área das Américas do sul do Texas, Flórida e das Índias Ocidentais até a Bolívia, Argentina, Paraguai e sul do Brasil. Os adultos são espécies típicas de floresta aberta, encontradas desde o nível do mar até 1.500 metros em habitat florestal úmido ou sazonalmente perturbado, como clareiras, margens de rios, estradas, bordas, vegetação secundária e até pomares ou jardins onde muitas espécies herbáceas de Acanthaceae prosperam (Blechum , Justicia, Ruellia). Os adultos são atraídos por flores e frutas podres, eles costumam repousar e se ensolarar na folhagem mais baixa em trilhas, estradas ou jardins, e as fêmeas patrulham pequenos trechos desse habitat em busca de suas plantas hospedeiras para colocar os ovos de onde eclodem as lagartas da próxima geração. Estas são preto-oliva com tubérculos rosados ​​e brancos, lembrando muito as lagartas tóxicas de Parides e Battus (Papilionídeos). As pupas são verde-limão claras com alguns espinhos curtos.

Macuco

A observação de aves exige muita atenção e resistência física de qualquer observador que se propõe a aventurar-se pela REGUA. O clima quente e úmido, característico da Mata Atlântica, as trilhas sinuosas e íngremes, somados à timidez natural dos pássaros, torna este hobby um verdadeiro desafio. Até a serrapilheira da floresta, composta por restos de plantas e acúmulo de material orgânico vivo em diferentes estágios de decomposição, pode atrapalhar esta atividade, pois o ruído ao se pisar neste material, denuncia a presença de alguém nas trilhas. Uma das aves mais difíceis de ser avistada é o Macuco (Tinamus solitarius), uma grande ave terrestre que foi historicamente perseguida e estimada pela sua carne. O Macuco é endêmico da Mata Atlântica, se alimenta principalmente de insetos e é caracterizado como “Quase ameaçada” pela Lista Vermelha de Espécies Ameaçadas da IUCN.

Embora a caça tenha diminuído significativamente na REGUA, escuta-se ocasionalmente o canto desses pássaros na floresta, mesmo assim sendo bem difícil avistá-lo. Provavelmente é mais fácil encontrar um ninho no solo com alguns ovos verde-esmeralda, do que os próprios pássaros.

Adilei da Cunha, em uma das suas caminhadas, contou seu entusiasmo ao ouvir um adulto vocalizando e, ao tentar seguí-lo, encontrou apenas um filhote tentando se camuflar entre as folhas. Como estava bem escondido, foi difícil capturar uma imagem nítida. Foi um momento de alegria para Adilei, já que raramente vê esses pássaros na natureza. Esse é um bom sinal de que os esforços da REGUA para a proteção e conservação das florestas, estão contribuindo para o aumento da população de muitas espécies da fauna local.

Filhote de Macuco camuflado entre os galhos e folhas secas (© Nicholas Locke).