Mudanças taxonômicas nos Sphingidae brasileiros

Xylophanes soaresi, previamente X. porcus continentalis (© Alan Martin)

Em 2011, a REGUA publicou seu primeiro guia de de campo,  Guia dos Sphingidae da Serra dos Órgãos, Sudeste do Brasil , que descreveu e ilustrou as 110 espécies que podem ser encontradas nessa área. No entanto, desde então, ocorreram uma série de mudanças taxonômicas abordadas e compiladas num artigo abrangente recentemente publicado no European Entomologist (Vol 11, No 3 + 4) por J. Haxaire e C. G. Mielke que fornece a lista mais recente de todas as espécies que ocorrem no Brasil, mas introduzindo também várias espécies novas.

Todas essas espécies foram atualizadas no site Hawkmoths of Brazil , mas de particular interesse para a área da REGUA são:

Uma nova espécie Protambulyx pearsoni foi separada de P. sulphurea e a substitui na Serra dos Órgãos.

Xylophanes alineae, previamente X. porcus continentalis (© Alan Martin)

Uma nova espécie, Manduca exiguus , foi separada de M. contracta e foi registrada para o Estado do Rio de Janeiro, mas que se saiba ainda não encontrada na Serra dos Órgãos.

Manduca paphus é agora reconhecida como uma espécie distinta e foi separada de M. sexta.

Nyceryx nephus foi elevado ao status de espécie com base em um único espécime coletado em Cachoeiras de Macacu.

Isognathus brasiliensis foi separado de I. swainsonii e o substitui na Serra dos Órgãos e sudeste do Brasil.

Xylophanes reussi, previamente X. marginalis (© Alan Martin)

Eumorpha orientis é agora reconhecida como uma espécie distinta, tendo sido separada de E. obliquus .

Xylophanes reussi foi separado de X. marginalis , mas ambos parecem compartilhar a mesma distribuição geral.

Uma nova espécie Xylophanes crenulata foi separada de X. ceratomioides . Acredita-se que apenas X. crenulata ocorra na Serra dos Órgãos.

Duas novas espécies Xylophanes alineae e X. soaresi foram separadas de X. porcus continentalis, sendo ambos encontrados na Serra dos Órgãos.

Aparentemente, é provável que Errinyis ello se dividida também em duas espécies distintas: o tipo que se alimenta principalmente de mandioca chegando a ser praga desta cultura e o tipo que vive na floresta, e todo o complexo grupo do genero Nycerx também está sob análise.

Portanto, eu recomendaria sempre usar o site a partir de agora em vez do livro, mas se você encontrar algum erro no site, por favor nos avise e iremos corrigi-los.

Oficina SISS-Geo Zoonoses Urbanas / Fiocruz

Durante os dias 18, 19 e 20 de agosto, na RPPN Regua –  Reserva Ecológica de Guapiaçu, a equipe do SISS-Geo Fiocruz em conjunto com a equipe técnica da Coordenação Geral de Zoonoses, da Coordenação Geral de Arboviroses e de Sistemas do Ministério da Saúde, trabalharam unindo esforços para a integração das zoonoses silvestres e urbanas no SISS-Geo.

A escolha da RPPN REGUA como local da oficina ocorreu pelo alinhamento das equipes envolvidas nos esforços de aproximar instituições governamentais e ONGs aos objetivos para a concretização de inciativas para a Saúde Única, além da logística e do ambiente confortável e seguro para a realização de oficinas de trabalho.

A OFICINA SISS-Geo Zoonoses Urbanas foi um encontro híbrido com participações presenciais na Lodge REGUA, em Cachoeira de Macacu, no Rio de Janeiro e on-line. A atividade é parte estratégica do Projeto piloto para a estruturação e ampliação do Sistema de informação em Saúde Silvestre (SISS-Geo) aos hospedeiros de zoonoses urbanas.

Mais informações em: http://www.biodiversidade.ciss.fiocruz.br

Participantes da oficina SISS-Geo realizada pela Fiocruz (© Luiz Gomes e Marcelo Galheigo).

Ithomiini: as borboletas da Mata Atlântica gulosas por plantas toxicas

O mimetismo é um fenômeno muito estendido na Natureza, onde algumas espécies imitam os padrões morfológicos e cromáticos de outras, se beneficiando de alguma forma de proteção em virtude dessa semelhança com o modelo. Habitualmente, este possui alguma característica física ou bioquímica que o torna detestável aos predadores. No caso das borboletas, geralmente trata-se da presença  de substâncias tóxicas (habitualmente alcalóides) e/ou impalatáveis no organismo dos modelos.

Nas Américas existe uma tribo endêmica da subfamília Danainae de Nymphalidae: as borboletas Ithomiini, cerca de 350 espécies – muitas delas apelidadas popularmente de ‘vidrinhos’ devido a transparência de grande parte da superfície das asas – onde a maioria participa de anéis miméticos entre si e com outros lepidópteros, incluindo a subfamília Heliconiinae e algumas mariposas diurnas.

Na maioria dos casos. os compostos químicos envolvidos das borboletas tóxicas de “gosto ruim” (impalatáveis) são incorporados no estágio de larva a partir das plantas onde se alimentam. No caso dos ‘vidrinhos’ as plantas usadas pelas larvas são Apocynaceae em parte (uma fonte compartilhada com a tribo Danaiini) mas a maioria se alimenta de Solanaceae, família botânica onde se incluem legumes populares como tomates, batatas, berinjela e jiló. No entanto, bastantes espécies sequestram esses compostos alcalóides já na fase adulta; especialmente os machos sugam alcalóides das flores e raízes de arbustos, lianas ou arvoretas da familia Asteraceae ou folhas secas em decomposição de Boraginaceae.

Por ocasião do recorrido efetuado em um dos transectos para monitoramento de borboletas (trecho da Trilha Amarela) recentemente roçado para manutenção, pude observar ao longo de uma semana como grupos de várias espécies de ‘vidrinhos’ se congregavam sobre raízes de um arbusto Eupatorium  (Asteraceae) – especialmente no início da manhã e a tardinha – tal como exemplificado na foto. As espécies observadas sequestrando alcalóides dessas raízes expostas foram as seguintes: Episcada striposis, Episcada sylvo, Hypothiris ninonia daeta, Hypothiris euclea lapria, Ithomia agnosia zikani, Ithomia drymo e Pseudoscada erruca.

Um grupo de pelo menos 6 especies de Ithomiini sugando compostos da raiz de uma Asteraceae (Eupatorium sp.) (© Jorge Bizarro)

II Encontro Científico da REGUA

O II Encontro Científico da REGUA foi apresentado de maneira virtual dos dias 21 a 23 de julho de 2021. Os assuntos foram divididos em Fauna, Flora, Monitoramento e Planejamento Ambiental, Restauração Ecológica e Saúde e Meio Ambiente.

Jorge Bizarro, da coordenação de pesquisas da REGUA abrindo o II Encontro Científico (©REGUA).

Foram convidados a participar os pesquisadores que estão realizando seus trabalhos aqui na REGUA, assim como pesquisadores que já terminaram suas pesquisas, além de pesquisadores e palestrantes relacionados aos órgãos ambientais e membros de outros projetos apoiados pelo programa Petrobrás Socioambiental, que fazem parte da REDAGUA – Rede de Conservação pelas Águas da Guanabara.

O evento foi um desafio para todos, especialmente porque tudo foi feito de maneira remota e transmitido ao vivo pelo canal do Youtube do Projeto Guapiaçu. Mesmo assim, tivemos muita interação através do chat (caixa de diálogo no canal Youtube) durante as apresentações. Além dos palestrantes do dia, 35 vídeos de demais pesquisadores foram disponibilizados neste canal (https://www.youtube.com/c/ProjetoGuapia%C3%A7u/playlists).

Tivemos a contribuição de muitos trabalhos interessantes! Um deles diz respeito ao estudo de alternância do estado dos nossos wetlands, que têm apresentado águas mais turbas devido à presença de algas do tipo Euglena sanguinia, que podem produzir um tipo de toxina prejudicial aos peixes.

Egeria densa, um tipo de alga presente nos alagados da REGUA, que pode ser tóxica para os peixes (© Micaela Locke).

Essa alga também impacta o desenvolvimento de uma macrófita submersa, a Egeria densa que tem um papel importante no equilíbrio dos ambientes aquáticos, pois além de produzir oxigênio – que é liberado na água, serve de alimento para muitas espécies de peixes, aves e mamíferos. Além disso, funciona como abrigo para microrganismos planctônicos – micro-crustáceos e alguns tipos de moluscos. Um outro trabalho bacana nos mostra a constância ao longo de 10 anos de pesquisa sobre as diversidade de quirópteros (morcegos) presentes na REGUA.

No bioma Mata Atlântica existem 78 espécies de morcegos e na REGUA já se somam 43 espécies.

A espécie de morcegos Carollia perspicillata, a mais abundante na REGUA . C. perspicillata se alimenta de uma grande variedade de frutos, assim como néctar e pólen, e também insetos. (©Priscila Stefani)

Em geral, os morcegos contam com uma eco localização bastante apurada, que os fazem perceber as redes de neblina com muita facilidade. Já os morcegos insetívoros, contam com uma sensibilidade ainda maior, tornando-os mais difíceis de serem capturados, e por isso, os esforços de inventário devem continuar. Outra iniciativa interessante é o Biocenas – Núcleo de Fotografia Científica Ambiental –, que vem coletando imagens dinâmicas e estáticas na REGUA desde 2010, com o objetivo de utilizar a percepção visual como forma de aproximar o homem com o meio que o cerca. O acervo conta com 4.500 imagens e este material tem sido identificado e disponibilizado para fins de educação e pesquisa, além da compreensão da biodiversidade local. Recentemente foi publicado o Guia de Campo da Biodiversidade da Fauna na Reserva Ecológica de Guapiaçu.

Temos outras diversas contribuições que serão apresentadas regularmente através das nossas mídias sociais, que confirmam a importância da REGUA em estar incentivando a pesquisa na região.

Agradecemos à Equipe do Projeto Guapiaçu por ter organizado este incrível Encontro Científico e espero que todos tenham aproveitado este pequeno espaço de conhecimento.

Tem bebê novo de anta na área!

Em 2020 as antas Eva e Valente nos deram Curumim, o primeiro filhote de anta nascido no estado do Rio em 100 anos.

Segundo filhote de anta nascido em liberdade na REGUA (© Marcelo Rheingantz/Projeto Refauna).

Esse ano, que alegria, Flora e Júpiter nos deram mais um bebê anta! Com essa segunda antinha, nossa população está crescendo. Isso nos enche de orgulho e confiança num futuro onde as florestas da Mata Atlântica voltarão a ter antas em abundância.

Flora e Júpiter foram soltos em 2018, vindos do Parque Ecológico da Klabin, e desde então nunca estão muito longe um do outro (apesar de andarem sós, como é normal para antas).

No vídeo de armadilha fotográfica vocês veem mamãe Flora e o filhote, que deve ter por volta de 6 meses. Ainda não sabemos seu sexo, e ele provavelmente nasceu em janeiro, como o Curumin ano passado.

Sabemos disso graças ao monitoramento que fazemos junto com o @projetoguapiacu, nosso super parceiro na empreitada de reintroduzir as antas aqui na REGUA.

Esperamos que a notícia dessa nova vida aqueça o coração de vocês!

As árvores da Mata Atlântica: a Braúna (Melanoxylon brauna)

A Braúna em uma das áreas reflorestadas pela REGUA (©Raquel Locke)

A braúna é uma espécie arbórea endêmica da Mata Atlântica, pertencente à família Leguminosae, encontrada no sul do estado da Bahia, Espírito Santo, São Paulo, Minas Gerais e Rio de Janeiro. Seu estado de conservação na categoria “Vulnerável” pela IUCN remete ao uso intensivo da sua madeira compacta e pesada na indústria civil assim como na confecção de instrumentos musicais, cabos de ferramenta, postes e mourões. A braúna é uma espécie semi-decídua, heliófita, encontrada em florestas tanto primárias como em florestas secundárias tardias. Sua dispersão se dá pela ação do vento (anemocórica).  Este exemplar se encontra na área do “Francês”, que são nossos vizinhos e parceiros.

Braúna em flor (©Raquel Locke)

 

O Tapiti (Sylvilagatus brasilienses)

Encontrado em todos os biomas brasileiros, com exceção de uma parte da Amazônia, este simpático mamífero tem hábitos noturnos e solitários, pois como é alimento para diversas espécies, como onças-pardas, jaguatiricas, algumas serpentes, entre outros animais, possui o hábito de viver em silêncio e com muita discrição.

São animais herbívoros e sua dieta consiste na alimentação de frutos, brotos e talos de vegetais. Estes coelhos fazem o ninho com folhas ou capim seco, forrando o interior com seus próprios pelos para criar seus filhotes e costumam dar à luz entre um e seis filhotes.
Alguém já pensou que o coelho é um roedor? Pensamos que essa pode ser uma confusão normal, porém para a ciência, o que mais difere os coelhos dos roedores é a dentição: eles possuem quatro dentes incisivos (dois superiores e dois inferiores), já os roedores têm apenas dois. Além dos coelhos possuírem lindas orelhas compridas!

O Tapiti flagrado por uma armadilha fotográfica (©Projeto Refauna)

Conheça as mariposas perfuradoras de frutas!

A maioria das mariposas se alimentam do néctar de flores e assim se comportam como polinizadoras. Uma outra parte vive poucas horas ou dias e acumulam gordura na fase larvar, pelo que os adultos mal se alimentam,bebendo apenas água. No entanto, vários grupos da família Erebidae (ex-Noctuidae latu sensu + Arctiidae) são frugívoras, se alimentando de frutas maduras em inicio de decomposição. Elas incluem o conhecido e popular gênero Catocala da região temperada setentrional, que podem ser atraídas pincelando purê de frutas sobre cascas e troncos de arvores.

Eudocima sp.  (© Micaela Locke).

Alguns gêneros da subfamília Calpinae se especializaram em perfurar a casca de frutas intactas com a espiritrompa, peça bucal tipica de 99% dos lepidópteros adultos, que neste caso possui uma extremidade pontiaguda e farpada, propiciando que a mariposa possa perfurar a casca da fruta a sorver o suco dela, sendo algumas delas consideradas pestes de pomares de frutas cítricas.

Na nossa região ocorre o colorido gênero Eudocima, de distribuição Pantropical (com especies em todas as regiões tropicais) exemplificado pelo individuo aqui flagrado sobre uma fruta caída no solo.

Finalmente, a titulo de ‘curiosidade’, a Natureza foi um pouco mais alem e as modificações da espiritrompa que possibilitaram a perfuração de frutas intactas, com alguns aperfeiçoamentos, permitiram o aparecimento de algumas especies hematófagas no Sudeste asiático capazes de perfurar a pele de mamíferos para se alimentarem do sangue de animais de grande porte, inclusive o gado local. São as mariposas ‘vampiras’ do gênero CalyptraO tipico nesse gênero asiático é se alimentar da secreção lacrimal desses animais, mas uma meia duzia de especies se especializaram na hematofagia, que nem os pernilongos.

Corujinha-sapo (Megascops atricapilla)

A corujinha-sapo (Megascops atricapilla) fotografada por Adilei Cunha.

A corujinha-sapo (Megascops atricapilla) pertence a familia Strigidae que compreende todas as espécies de corujas do Brasil com exceção da coruja-da-igreja (Tyto furcata). A corujinha-sapo está presente no Sudeste do Brasil, no norte da Argentina e no leste do Paraguay. Segundo a classificação da IUCN sua categoria é de Pouco Preocupante (LC). De hábito crepuscular, como o da maioria das corujas, se alimenta de insetos variados, de roedores, de pequenos mamíferos e de aves de tamanho reduzido. Utilizam cavidades ocas de árvores e ninhos abandonados para nidificar. Estas corujinhas estão associadas com as florestas Ombrófilas densas bem preservadas.

Este registro foi feito por Adilei Cunha, que ouvia o seu canto há alguns dias, próximo à sua casa, decidindo uma noite aventurar-se pela mata à sua procura!

Treinamento para os guarda-parques da REGUA

Eduardo Rubião liderando o grupo de guarda-parques da REGUA até uma das áreas de reflorestamento realizados pela REGUA (© Micaela Locke).

Durante o mês de maio, o curso de treinamento dos guarda-parques da REGUA estará sendo liderado pelo médico veterinário Eduardo Rubião, fundador da Consultoria ambiental Phoenix. Através da Instituição Rain Forest Trust será possível realizar estes encontros, que visam aprimorar o trabalho de proteção e conservação da REGUA na bacia do rio Guapiacu.

O papel vital dos guarda-parques como guardiões do patrimônio ambiental e sua relevância para a sociedade, primeiros-socorros, unidades de conservação e suas diferentes categorias, monitoramento de trilha e a sua sinalização são alguns dos tópicos que serão abordados durante o curso. A presença dos guarda-parques na REGUA garante a integridade e manutenção da biodiversidade e os serviços ecossistêmicos por ela providos.

Eduardo Rubião mostrando na prática como lidar com serpentes (© Micaela Locke).
Mateus Cardoso entusiasmado em olhar por dentro de um Jequitibá, uma das maiores árvores da Mata Atlântica (© Micaela Locke).