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A anta Jasmin de volta à natureza!

ANTAS VOLTAM ÀS FLORESTAS DO RIO DE JANEIRO APÓS 100 ANOS DE EXTINÇÃO  

O professor Maron Galliez, coordenador do projeto, tentando convencer a Jasmin a sair da poça (© João Stutz).

 

Os professores Fernando Fernandez, Alexandra Pires, Maron Galliez e Marcelo Rheingantz conceberam o projeto REFAUNA com o objetivo de reintroduzir e manejar espécies de fauna que estão extintas localmente ou que estejam sofrendo algum nível de ameaça dentro de sua distribuição original. A introdução de animais na natureza ajuda no restabelecimento da interação animal-vegetal e nos processos ecológicos, contribuindo para o desenvolvimento de um ecossistema saudável e equilibrado. Os processos ecológicos fundamentais dos ecossistemas são o ciclo da água, o ciclo biogeoquímico (ou nutriente), o fluxo energético e a dinâmica dos ecossistemas, que contribuem para a permanência da biodiversidade a longo prazo. A fragmentação e a perda de habitat ao longo do tempo impactaram negativamente populações de médios e grandes mamíferos. A caça excessiva levou várias espécies de mamíferos a uma redução populacional significativa e à extinção de espécies.

O dia em que a Jasmin chegou na REGUA (© João Stutz).

Essa interferência humana na dinâmica florestal tem impactado a diversidade e abundância de espécies, resultando no que é conhecido como “defaunação” no Antropoceno.   O programa de reintrodução de antas desenvolvido pelo REFAUNA na REGUA teve início em 2017, e é apoiado e implementado pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ), Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (UFRRJ) e Instituto Federal do Rio de Janeiro (IFRJ). Até o momento, 11 antas (fêmeas e machos) foram reintroduzidas no território da REGUA, e em agosto de 2020, tivemos a anta Jasmin chegando à REGUA. Ela veio do zoológico de Guarulhos, em São Paulo, e passou cerca de 3 meses no cercado de aclimatação para se familiarizar com o novo ambiente. A Jasmin recebia alimentação, aproximadamente 11 kg entre frutas e legumes, distribuída pelo Sidnei, que vinha todos os dias  alimentar e monitorar a Jasmin.

A Jasmin mal-humorada não querendo sair do seu cercado (© Vitor Marigo).

 Passados quase 3 meses, o dia da soltura finalmente chegou. No calendário, o dia anterior ao dia que de fato ocorreu a soltura estava agendado, no entanto, Jasmin estava um pouco mal-humorada e estressada, e por isso decidiu não sair do cercado. Ela se jogou na poça e decidiu ficar por lá. Respeitando a sua vontade e evitando um maior estress para o animal, somente hoje o portão pôde ser aberto permitindo que Jasmin deixasse o cercado sem hesitar. Os próximos dias serão muito importantes para acompanhar o desenvolvimento da Jasmin. Ela está sendo monitorada por uma rádio colar e provavelmente começará a buscar o local para se estabelecer. Bem vinda à natureza, Jasmin!

O filhote da anta Eva é macho.

Recentemente tivemos uma notícia muito triste, a anta Eva foi atropelada em uma estrada de terra por um motociclista, e dias depois foi encontrada morta. Felizmente o motociclista não se machucou gravemente. O filhote da Eva, que já tem oito meses de idade, não foi atingido. Estamos botando pontos de alimentação reforçados por onde Eva circulava com o filhote, vamos monitorá-lo com armadilhas fotográficas e se possível levá-lo para o cercado de aclimatação.

A última foto da Eva e o seu filhote juntos (© Refauna).

O atropelamento de animais silvestres é um grande problema, estima-se que 475 milhões de animais silvestres são atropelados por ano nas estradas do Brasil. No caso de animais de grande porte como as antas, esses atropelamentos podem causar acidentes graves. Respeitar os limites de velocidade e dirigir com atenção redobrada em estradas próximas à áreas naturais são meios de evitar esse tipo de acidente. Estamos providênciando, com apoio da prefeitura de Cachoeiras de Macacu, REGUA e Projeto Guapiaçu, redutores de velocidade e sinalização para a estrada próxima à REGUA, para reduzir a chance de novos acidentes.

Eva foi a primeira anta fêmea a ser reintroduzida na REGUA, viveu livre por quase três anos e deixou dois filhotes na natureza. Quando chegou ficava muito tranquila perto de pessoas, depois de solta em poucos meses ficou arisca e não se aproximava de ninguém, como uma anta selvagem. Estabeleceu seu território entre a REGUA e outras propriedades rurais, andava quase sempre junto da anta Valente, pai do seu filhote.

Se adaptou plenamente à vida livre, como se nunca tivesse vivido em cativeiro. Aprendemos muito com a anta Eva e estamos muito tristes com a sua morte, consola saber que teve uma boa vida livre, e que a reintrodução da Eva ajudou a acumular experiencia para a reintrodução de outras antas na natureza. Torcemos para que seu filhote tenha vida longa nas matas da REGUA.

As antas também são ótimas nadadoras (© Toca Seabra).

Conheça o projeto de reintrodução da Anta (Tapirus terrestris) na REGUA

A reintrodução de antas (Tapirus terrestris) na Reserva Ecológica de Guapiaçu (REGUA), uma especie localmente extinta no Estado do Rio de Janeiro há muitos anos, teve início em 2017 com a chegada de três animais. Essa reintrodução faz parte do plantel de projetos promovidos e levados a cabo pelo REFAUNA e neste caso está sendo coordenado também pelo Laboratório de Ecologia e Manejo de Animais Silvestres do Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia do Rio de Janeiro (LEMAS-IFRJ). Junto com a reintrodução desses animais, estão sendo conduzidas pesquisas acerca de sua capacidade de dispersão de sementes, ecologia espacial e outras interações ecológicas. Atualmente temos oito antas vivendo nas florestas da REGUA, sendo que uma nasceu em vida livre. Os animais estão adaptados e os moradores do entorno da REGUA apoiam a reintrodução. Planejamos transportar mais antas para a REGUA em breve, com o objetivo de estabelecer uma população viável, que com o tempo disperse para o Parque Estadual dos Três Picos e outras áreas florestadas adjacentes, colonizando a região mais densamente florestadas do estado, o Mosaico da Mata Atlântica Central Fluminense.

Antas nos alagados da REGUA, na vizinhancça do Centro de Visitantes (©REFAUNA)

 

Projeto socioambiental da Petrobras em Guapiaçu III (2020-2022)

O time do Guapiaçu III (© Breno Viana)
O time do Guapiaçu III (© Breno Viana)

A REGUA tem o prazer de anunciar que a Petrobras Socioambiental renovou o financiamento do GGV ou o agora renomeado ‘Projeto Guapiaçu III’. O projeto continua com seus objetivos em restauração e educação. Além de fortalecer o ecossistema da Mata Atlântica na REGUA através do plantio de árvores e continuar apoiando a educação, um novo elemento será o apoio oficial ao programa de reintrodução da Anta em curso na reserva.

Restauração florestal: Um misto de plantio de árvores e regeneração natural em 100 hectares ocorrerá na bacia hidrográfica de Guapiaçu, bem como o monitoramento de 260 hectares financiados pela Petrobras com o objetivo de medir o seqüestro de carbono. As árvores nativas são plantadas usando uma mescla de espécies pioneiras, secundárias e clímax. Além disso, este projeto identificará e selecionará mais 190 hectares dentro da bacia hidrográfica como parte de um banco de dados de restauração.

Educação ambiental: as escolas primárias e secundárias continuarão a visitar a REGUA na “trilha Grande Vida”, que vai desde o início da trilha amarela até a ponte de madeira. Os primeiros 400 metros da trilha foram adaptados para receber visitantes portadores de deficiência física. Cartazes autoexplicativos ao longo da trilha descrevem alguns processos florestais e alguns dos trabalhos de conservação realizados no REGUA. A equipe do projeto visitará jardins de infância nos municípios de Cachoeiras de Macacu e Itaboraí.

O GGV continuará com o programa de monitoramento da qualidade da água, envolvendo 80 alunos do ensino médio treinados pela equipe para monitorar a qualidade da água dos rios Guapiaçu, Macacu e Caceribu em determinados locais de amostragem ao longo de cada rio (áreas urbanas a montante e a jusante) para fornecer dados sobre as características físicas dos rios e características químicas. A equipe também estudará indicadores biológicos da qualidade da água.

Programa de apoio à reintrodução da anta: Guapiaçú III O projeto socioambiental da Petrobras patrocinará o transporte e o equipamento de telemetria bem como o programa de promoção e extensão comunitária na área. Outras seis antas serão liberadas na REGUA a partir de junho de 2020.

Primeira anta selvagem nascida na REGUA

Imagem capturada da armadilha fotográfica mostrando a primeira anta selvagem nascida no Rio de Janeiro após 100 anos (© Adilei Carvalho da Cunha)

Trazemos a vocês a notícia do nascimento de uma anta Tapirus terrestris, ao ar livre, sem ter sido em cativeiro, fato que não ocorria há mais de 100 anos.

Essa história começa em 2016 quando o Professor Fernando Fernandez da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) elaborou um plano de soltura de antas, uma espécie extinta no estado do Rio de Janeiro há mais de 100 anos, na REGUA durante um período de 3 a 4 anos. O local estratégico pensado, uma das áreas reflorestadas em 2005 pela REGUA e financiada pelo World Land Trust, tinha conexão com o Parque dos Três Picos, onde se encontra o terceiro maior remanescente de Mata Atlântica do mundo. Após algum tempo de diálogo com as autoridades do Parque, citando os benefícios da dispersão de sementes realizada pelas antas, o aval foi dado.

Foram construídos dois grandes cercados na floresta, ao redor dos lagos da REGUA, para receber 3 antas que estavam em um criadouro em Minas Gerais. Vieram a Eva, seu filhote Floquinho e o seu parceiro Adão, nomes estes escolhidos pela comunidade do entorno da REGUA no final do ano 2017. Infelizmente, o Adão teve uma forte pneumonia e acabou morrendo, porém não muito tempo depois, o projeto Refauna trouxe mais três antas de um criadouro no Paraná. Eles se chamavam Júpiter, Valente e Flora. Júpiter remete ao Deus do céu e do trovão na mitologia romana, e o nosso Júpiter agindo de acordo, logo expulsou Floquinho de perto de sua mãe Eva, que agora vive na parte baixa da bacia do Guapiaçu. Assim, Júpiter se encontra no território da REGUA com as duas fêmeas Eva e Flora. Após 13 meses, Eva nos presenteou com o nascimento do primeiro bebê anta!

O projeto Refauna registrou as primeiras imagens através de uma armadilha fotográfica e recentemente, nosso guia de Aves Adilei Carvalho da Cunha, instalou duas armadilhas fotográficas, percebendo depois que um dos cartões de memória estava comprometido e o outro registrou um número incrível de pacas, saguis, gambás e cuícas, porém sem sucesso com o registro das antas. Ao substituir o cartão de memória finalmente voltou com os registros das antas, nos trazendo imensa alegria. Os vídeos mostram um indivíduo saudável, todavia sem nome, que deve estar com 3 meses. A mãe está vivendo em uma área mais aberta, sem ser na floresta densa, próximo a alguma lavoura ou campo, onde já foi vista várias vezes usando uma trilha que a leva ao rio.

Essa não é apenas a primeira anta selvagem nascida na Reserva Ecológica de Guapiaçu, como a primeira nascida sem ser em cativeiro após 100 anos. Agradecemos ao Projeto Refauna, aos donos dos criadouros e, às autoridades do Parque dos Três Picos, pois certamente irão se deparar com as antas em suas vastas áreas verdes.

Projeto de reintrodução da Jacutinga (Aburria jacutinga) na REGUA

Em 2010, tendo em conta a alarmante situação de conservação da jacutinga e as constantes pressões ao habitat da espécie, teve início o “Programa de Conservação de Aves Cinegéticas da Mata Atlântica: Reintrodução e Monitoramento de Jacutingas (Aburria jacutinga)e.g. Projeto Jacutinga. O programa foi uma exigência do Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade – ICMBio/APA Mananciais do Rio Paraíba do Sul com a finalidade de atender parte do passivo ambiental referente à licença de instalação do gasoduto Caraguatatuba-Taubaté (GASTAU) construído pela Petrobras.

A Fase I (2010-2013) do programa confirmou a raridade da jacutinga na Região da Serra do Mar e a necessidade de um reforço populacional urgente a fim de evitar a extinção local da espécie, considerada Criticamente Ameaçada (CR) de extinção pela lista de animais ameaçados no estado de São Paulo e Em Perigo (EN) de acordo com a lista Nacional de dezembro de 2014. No estado do Rio de Janeiro a espécie está extinta, tendo sido avistada pela última vez em 1978 no Itatiaia e em 1980 na Serra dos Órgãos; o que levou à extensão do programa de reintrodução da ave para a Reserva Ecológica de Guapiaçu (REGUA).

Alecsandra Tassoni e Flávio Soffiati, veterinário do Projeto. (©  REGUA)

A Fase II (iniciada em 2014 e com duração prevista para cinco anos) visa a reintrodução e monitoramento de jacutingas na região da Serra da Mantiqueira em São Francisco Xavier na Serra da Mantiqueira, em áreas próximas ao Parque Estadual da Serra do Mar – Núcleo Caraguatatuba/São Paulo e na REGUA/Cachoeiras de Macacu, estado do Rio de Janeiro . Paralelamente, será estabelecido um protocolo de reintrodução e monitoramento destas aves de forma a poder ser replicado em outros locais onde a espécie está localmente extinta.

 As ações do projeto envolvem testes de sanidade das aves, preparação comportamental, reintrodução/soltura e monitoramento, educação e disseminação da importância da conservação da jacutinga e outras aves de Mata Atlântica. O apoio de zoológicos e dos criadouros conservacionistas de jacutingas, mediante fornecimento de aves para serem soltas é fundamental para o sucesso do projeto.

As jacutingas Thaty, Lily, Coffee e Carmen oriundas de cativeiro (3 da UENF e 1 do Parque das Aves) ficaram cerca de 6 meses no viveiro de reabilitação do Projeto Jacutinga em São Francisco Xavier para treinamentos de reconhecimento de predadores (aves de rapina, felinos e cães), teste alimentar, de voo e observações comportamentais. Após serem consideradas aptas para soltura foram transferidas para o viveiro de ambientação na REGUA onde passarão um mês de aclimatação antes da soltura.  Após a reintrodução serão monitoradas através de transmissores de localização via rádio, busca ativa e pela participação da comunidade local incentivando a prática de observação de aves.

Alecsandra, Flávio, Raquel e Rildo transportando a primeira jacutinga para o viveiro (© REGUA)

 

O projeto realizou a primeira soltura em junho de 2016 e até o momento foram 12 jacutingas soltas na Serra da Mantiqueira e 06 na Serra do Mar, totalizando 18 indivíduos.

Este projeto é realizado pela SAVE Brasil e patrocinado pela Fundação Grupo Boticário no RJ e pela Petrobras em SP.

 Alecsandra Tassoni, coordenadora do Projeto Jacutinga da SAVE Brasil