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Conheça as borboletas Monarca e Rainha

Inflorescência de Asclepias curassavica (©Micaela Locke)

Estas borboletas de viva coloração vermelho-tijolo com listras pretas brilhantes e um número variável de pontos brancos pertencem à subfamília Danainae dos Ninfalídeos. A maioria dos gêneros desta família voa na África tropical e nas regiões Indo-Australásicas, onde se apresentam principalmente de cor negra-marrom, creme ou branco-esverdeada. No entanto, o cosmopolita gênero Danaus apresenta mais espécies nas Américas e se compõe majoritariamente de espécies vermelho-alaranjadas, com algumas exceções no Velho Mundo. São borboletas migratórias de vida longa, sendo a borboleta Monarca  mundialmente famosa por suas migrações anuais em massa entre o Canadá e a região central do México.

Borboleta Monarca do Sul: Danaus erippus (©Marcos Kampis)

Essas borboletas são um modelo popularizado entre os pesquisadores que estudam as relações bioquímicas entre insetos e plantas devido à facilidade de criá-las em grande número em laboratório. As espécies de Danaus retêm alguns dos compostos químicos secundários tóxicos de suas plantas hospedeiras que as protegem de predadores durante sua vida adulta. A pesquisadora Daniela estuda essas relações há décadas, desde seus tempos na UNICAMP junto ao grupo especializado nessas interações inseto-planta de lá. Há um par de anos que se mudou para a UFRJ no Rio de Janeiro tendo continuado suas pesquisas na REGUA e  regiões vizinhas onde tanto Danaus erippus como D. gilippus (ligeiramente menor e com mais pontos brancos) são residentes comuns.

Ovo de Danaus sp. em botão floral de Asclepias (©Micaela Locke)

Suas larvas se alimentam localmente de “Milkweed” (Asclepias curassavica), uma planta herbácia perene que ocorre em áreas ensolaradas ao longo de estradas, trilhas e bordas de campos de lavouras. Recentemente, uma  espécie exótica de Asclepias colonizou algumas áreas litorâneas do Brasil levantando algumas questões, pelo que Daniela agora está testando o desempenho das larvas de Danaus erippus se alimentando nesta planta, em termos de nutrição, taxa de crescimento e sobrevivência das larvas.

Um achado surpreendente após 12 anos de amostragens no Fragmento Cunha.

Para os nossos hóspedes e visitantes amantes de fotografia da natureza, insetos e aracnídeos, um local popular para visitar nas suas excursões pela REGUA é o fragmento florestal ‘Onofre Cunha’. É um dos maiores fragmentos florestais da baixada existente na região, grosseiramente cortado em dois trechos pela estrada asfaltada que liga o Funchal ao Guapiaçu. Apesar de ter sofrido corte seletivo, caça e alguma degradação por atividades agrícolas circundantes, ainda assim podem se observar com certa regularidade muitas espécies interessantes, raras ou difíceis de encontrar (o oposto de áreas reflorestadas que exibem muitas flutuações populacionais) e muitos registros novos ao longo dos anos se originaram ali.

Doxocopa laurona / macho (© Alan Martin)

Assim, não é à toa que após 12 anos de visitas regulares, amostragens e monitoramento de borboletas nesse fragmento, um exemplar da mais rara das borboletas imperador da América do Sul (gênero Doxocopa) surgiu repentinamente, se exibindo em um ensolarado local da trilha durante o início da manhã por tempo suficiente para ser fotografada!

Doxocopa laurona é uma espécie endêmica da Mata Atlântica conhecida apenas de uma meia dúzia de localidades dispersas pelo Sul e Sudeste do Brasil, desde o nível do mar até cerca de 900 m: vale do Rio Doce (estados de MG e ES), Petrópolis (localidade tipo) e colinas florestadas na região dos lagos de Saquarema a Cabo Frio (RJ), Antonina (PR) e Joinville (SC).

Doxocopa linda mileta / macho (©Marcus Kempis)

A foto acima retrata um macho inconfundível de Doxocopa laurona que pertence a um grupo de quatro espécies onde ambos os sexos são miméticos de Adelpha (geralmente apenas as fêmeas de Doxocopa se assemelham a Adelpha). Neste grupo apenas os machos de 3 delas apresentam o conspícuo reflexo roxo-violeta dependendo do ângulo de abertura das asas. Assim, é fácil distinguir os machos de D. laurona dos da espécie mais comum e difundida do grupo – Doxocopa linda – pois, tal como as fêmeas, os machos desta carecem desse reflexo púrpura-violeta. Curiosamente, esta espécie voa por toda a América Tropical continental junto com as demais espécies do grupo cujos  machos possuem o reflexo, ao passo que estas apresentam distribuições geográficas mutuamente exclusivas entre si, não existindo sobreposição das respectivas áreas de voo. Isso se deve ao fato de que o reflexo violeta dos machos é um caractere sexual secundário que provavelmente orienta as respetivas fêmeas na seleção do macho conspecífico adequado, evitando assim a hibridização entre espécies distintas na natureza. Isso justificaria porque D. linda é a única espécie que voa junto com as demais do grupo, dado que seus machos são inconfundíveis pela ausência do reflexo, compartilhando localmente território com D. laurona no Sul e Sudeste do Brasil.

Nesse mesmo dia foi flagrada uma fêmea desse grupo durante um monitoramento na mesma trilha, identificada originalmente como D. linda. No entanto, como se viu, tanto poderia ser esta ou uma fêmea de D. laurona­ (previamente desconhecida na região), porque ambas são desprovidas de reflexo violeta e muito semelhantes entre si.