Category Archives: Borboletas

As Borboletas Malaquita

Siproeta stelenes meridionalis (Fruhstorfer, 1909)

Siproeta stelenes  (© David Geale).

Por alguma razão, o verde não é uma cor comum ou popular entre as borboletas neotropicais. Ao contrário de outras regiões tropicais do Velho Mundo, ocorrem apenas uma dúzia  de borboletas esverdeadas nos trópicos americanos (alguns licenídeos dos gêneros Cyanophrys, Evenus, Arcas, Erora, alguns papilionídeos e Nessaea).  entre elas o exemplo mais chamativo é a enorme borboleta verde malaquita, com linhas marrom e grandes asas quadradas de margens denteadas. Esta borboleta é uma imitação dos heliconídios (borboletas de asa longa) Philaethria wernickei e P. dido, das quais virtualmnte se distingue apenas pelo maior tamanho, asas menos alongadas e a margem  externa da asa posterior fortemente serrilhada com 3 pequenas indentações.

Philaethria wernickei  (© Antonio Lopes).

É uma espécie comum encontrada em uma vasta área das Américas do sul do Texas, Flórida e das Índias Ocidentais até a Bolívia, Argentina, Paraguai e sul do Brasil. Os adultos são espécies típicas de floresta aberta, encontradas desde o nível do mar até 1.500 metros em habitat florestal úmido ou sazonalmente perturbado, como clareiras, margens de rios, estradas, bordas, vegetação secundária e até pomares ou jardins onde muitas espécies herbáceas de Acanthaceae prosperam (Blechum , Justicia, Ruellia). Os adultos são atraídos por flores e frutas podres, eles costumam repousar e se ensolarar na folhagem mais baixa em trilhas, estradas ou jardins, e as fêmeas patrulham pequenos trechos desse habitat em busca de suas plantas hospedeiras para colocar os ovos de onde eclodem as lagartas da próxima geração. Estas são preto-oliva com tubérculos rosados ​​e brancos, lembrando muito as lagartas tóxicas de Parides e Battus (Papilionídeos). As pupas são verde-limão claras com alguns espinhos curtos.

Eueides isabella dianassa

Fëmea de Eueides isabella dianassa com o abdômen receptivo antes da cópula (© Micaela Locke).

 

Esta é Eueides isabella dianassa, da família Nymphalidae, subfamília Heliconiinae. Esta espécie voa durante o ano todo, talvez duas gerações, mas é vista com mais facilidade nos meses secos do inverno. Vive cerca de 2 a 3 meses e tende a permanecer perto da planta hospedeira das larvas (maracujás/ passifloras) que se alimentam das folhas.

A fêmea é ligeiramente maior do que o macho e coloca ovos isolados na parte inferior das folhas. As larvas, neste caso as lagartas, alimentam-se das folhas raspando a mesma face inferior enquanto são pequenas, depois as comem pelas bordas.

Machos voam em formato de “8” em volta da fêmea liberando feromônios. Somente um deles será escolhido pela fêmea (© Micaela Locke).

Quando chega na quinta idade (troca de ‘pele’ 4 vezes para continuar crescendo depois que esta estica) ao invés de trocar a pele, abandona a planta e procura um local abrigado (uma parede, um parapeito de janela, uma madeira seca, tronco de árvore) onde forma a pupa ou crisálida, ficando assim umas de 4 a 6 semanas até emergir a borboleta adulta. Em uma tarde ensolarada de inverno foi registrado o momento de cópula entre indivíduos desta espécie. Os machos voam no que faz lembrar o desenho de um “8” ao redor do sexo feminino liberando feromônios. A fêmea, receptiva, estava com seu abdômen imóvel esperando o macho curvar as suas asas em torno de seu abdômen, e assim fazer contato e copular. Foi interessante observar que em torno da fêmea voavam 3 machos, e neste caso, a fêmea copula com apenas um.

Novo livro da REGUA pronto para ser publicado: Guia de observação das Borboletas da Serra dos Órgãos

Capa do quarto livro da REGUA <em>Guia das Borboletas da Serra dos Órgãos</em>
Capa do quarto livro da REGUA Guia das Borboletas da Serra dos Órgãos

Em 2015, Alan Martin e Jorge Bizarro começaram a trabalhar em um guia de observação de borboletas para dar continuidade às demais publicações específicas da área da REGUA (mariposas, libélulas e pássaros). O que começou como um projeto de três anos acabou levando cinco anos, em parte porque o número de espécies registradas na área é maior do que foi previsto e também porque foi muito difícil obter fotos de algumas espécies mais raras.

O livro está prestes a ser impresso e abrange 803 espécies (exceto a subfamília Hesperiinae, em inglês conhecidas como “Grass skippers”) com descrições, comparações com espécies semelhantes, distribuição global e informações sobre ecologia, comportamento e plantas hospedeiras. Todas, exceto três das espécies, são ilustradas com mais de 1.300 fotos de espécimes vivos. As demais foram fotografadas a partir de exemplares de museus e de coleções particulares. Há também textos introdutórios para cada família, subfamília e tribo.

O livro será distribuído pela NHBS, porém no Reino Unido é aconselhável encomendar o livro ao Alan Martin a um preço reduzido de £30,00 mais £5,00 da postagem. Todos os lucros da venda do livro serão revertidos para a REGUA.

Borboleta rara encontrada na REGUA

Ortilia polinella
Fêmea de Ortilia polinella (© Duncan McGeough)

O projeto do próximo guia de campo da REGUA – Guia de Observação das Borboletas da Serra dos Órgãos – está progredindo, e com ele têm surgido conhecimentos novos sobre a fauna local de borboletas, juntamente com registros novos baseados em fotografias de hóspedes, voluntários e demais visitantes, que não param de chegar.

Uma notável raridade da Mata Atlântica foi encontrada em outubro de 2013 por Duncan McGeough, um voluntário da Alemanha, a apenas 30 metros do escritório da REGUA. Ortilia polinella (A. Hall, 1928), uma borboleta ‘prima’ das  Fritillarias da Europa como Melitaea cinxia. Esta espécie é conhecida de menos de meia dúzia de localidades nos estados brasileiros de Minas Gerais, Rio de Janeiro e Espírito Santo; sendo também muito raramente encontrada em coleções (apenas três fêmeas e seis machos no Museu de História Natural, Londres ). Um achado estupendo!

Os adultos são encontrados principalmente em matas, nas áreas e locais iluminados pelo Sol (bordas, pequenas clareiras, ao longo de trilhas, etc). Sua biologia é desconhecida, mas outras espécies do gênero usam espécies de Justicia (Acanthaceae) como plantas alimentícias das larvas. A foto mostra um exemplar feminino desgastado, descansando e tomando sol entre vôos exploratórios curtos para encontrar uma planta para ovipositar.

Duncan também ajudou com a criação do folheto de mariposas da REGUA que os hóspedes podem pegar na pousada, com 60 espécies comuns facilmente observadas no muro das mariposas.

Mais informações sobre Ortilia polinella podem ser encontradas aqui:

Fotos digitais de espécimes: http://butterfliesofamerica.com/L/t/Ortilia_polinella_a.htm

Revisão de Phyciodes/Ortilia por Higgins : http://archive.org/stream/bulletinofbritis43entolond#page/119/mode/1up

Registros novos de borboletas para o Estado do Rio de Janeiro

Semomesia geminus (Fabricius, 1793), REGUA, RJ, Brasil (© Jailson da Silva)

Apesar do RJ ter sido historicamente uma das portas de entrada preferida de muitos dos naturalistas que nos visitaram – quer no tempo da Colônia, como no do Império – resultando num invejável precedente de alguns séculos de pesquisa e documentação da Biodiversidade no Estado; ainda aparecem ‘surpresas’ ocasionalmente e, inclusive, espécies novas para a Ciência, especialmente nos grupos menos estudados e amostrados.

Nesta postagem damos a conhecer dois registros novos de borboletas para o RJ, da família Riodinidae. Estas espécies foram documentadas – por meio de fotografia digital – por alguns dos nossos hóspedes, pesquisadores ou funcionários, em suas caminhadas pelas trilhas da REGUA.

Semomesia geminus possui registros no ES, MG e PE, pelo que seu aparecimento no RJ não foi uma surpresa total; tendo já sido fotografada uma meia dúzia de vezes nas trilhas da REGUA por várias pessoas, inclusive nossos guarda-parques.

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Calospila parthaon (J.W. Dalman 1823), REGUA, RJ, Brasil, December 2015 (© Sandra Lamberts)

Calospila parthaon é conhecida apenas da região Amazônica e referenciada na BA, tendo sido fotografada (ambos sexos) na Trilha São José, por nossos hóspedes Arnold Wijker e Sandra Lamberts em Dezembro de 2015, numa estadia de fotografia muito produtiva na qual registraram muitas ocorrências novas de Riodinideos na REGUA e na região do Pico do Caledônia (Parque Estadual dos Três Picos – PETP).

Bibliografia

SOARES, BIZARRO, BASTOS, TANGERINI, SILVA, DA SILVA & SILVA; 2011. Preliminary analysis of the diurnal Lepidoptera fauna of the Três Picos State Park, Rio de Janeiro, Brazil, with a note on Parides ascanius (Cramer, 1775). Tropical Lepidoptera  Research 21(2): 66-79.

BIZARRO, J. M. S. & A. SOARES, 2012. Semomesia geminus (Fabricius, 1793) (Lepidoptera: Riodinidae: Mesosemiini): First records for Rio de Janeiro and Pernambuco states, range extension and distribution map, with an assessment of its potential wider occurrence in Brazil. Check List 8(3): 548-550.