Category Archives: Biodiversidade

Um achado surpreendente após 12 anos de amostragens no Fragmento Cunha.

Para os nossos hóspedes e visitantes amantes de fotografia da natureza, insetos e aracnídeos, um local popular para visitar nas suas excursões pela REGUA é o fragmento florestal ‘Onofre Cunha’. É um dos maiores fragmentos florestais da baixada existente na região, grosseiramente cortado em dois trechos pela estrada asfaltada que liga o Funchal ao Guapiaçu. Apesar de ter sofrido corte seletivo, caça e alguma degradação por atividades agrícolas circundantes, ainda assim podem se observar com certa regularidade muitas espécies interessantes, raras ou difíceis de encontrar (o oposto de áreas reflorestadas que exibem muitas flutuações populacionais) e muitos registros novos ao longo dos anos se originaram ali.

Doxocopa laurona / macho (© Alan Martin)

Assim, não é à toa que após 12 anos de visitas regulares, amostragens e monitoramento de borboletas nesse fragmento, um exemplar da mais rara das borboletas imperador da América do Sul (gênero Doxocopa) surgiu repentinamente, se exibindo em um ensolarado local da trilha durante o início da manhã por tempo suficiente para ser fotografada!

Doxocopa laurona é uma espécie endêmica da Mata Atlântica conhecida apenas de uma meia dúzia de localidades dispersas pelo Sul e Sudeste do Brasil, desde o nível do mar até cerca de 900 m: vale do Rio Doce (estados de MG e ES), Petrópolis (localidade tipo) e colinas florestadas na região dos lagos de Saquarema a Cabo Frio (RJ), Antonina (PR) e Joinville (SC).

Doxocopa linda mileta / macho (©Marcus Kempis)

A foto acima retrata um macho inconfundível de Doxocopa laurona que pertence a um grupo de quatro espécies onde ambos os sexos são miméticos de Adelpha (geralmente apenas as fêmeas de Doxocopa se assemelham a Adelpha). Neste grupo apenas os machos de 3 delas apresentam o conspícuo reflexo roxo-violeta dependendo do ângulo de abertura das asas. Assim, é fácil distinguir os machos de D. laurona dos da espécie mais comum e difundida do grupo – Doxocopa linda – pois, tal como as fêmeas, os machos desta carecem desse reflexo púrpura-violeta. Curiosamente, esta espécie voa por toda a América Tropical continental junto com as demais espécies do grupo cujos  machos possuem o reflexo, ao passo que estas apresentam distribuições geográficas mutuamente exclusivas entre si, não existindo sobreposição das respectivas áreas de voo. Isso se deve ao fato de que o reflexo violeta dos machos é um caractere sexual secundário que provavelmente orienta as respetivas fêmeas na seleção do macho conspecífico adequado, evitando assim a hibridização entre espécies distintas na natureza. Isso justificaria porque D. linda é a única espécie que voa junto com as demais do grupo, dado que seus machos são inconfundíveis pela ausência do reflexo, compartilhando localmente território com D. laurona no Sul e Sudeste do Brasil.

Nesse mesmo dia foi flagrada uma fêmea desse grupo durante um monitoramento na mesma trilha, identificada originalmente como D. linda. No entanto, como se viu, tanto poderia ser esta ou uma fêmea de D. laurona­ (previamente desconhecida na região), porque ambas são desprovidas de reflexo violeta e muito semelhantes entre si.

Resgate de uma preguiça na estrada!

Encontramos esta linda preguiça-comum ou preguiça-de-garganta-marrom (Bradypus variegatus) na beira da estrada! Ela estava tentando alcançar um galho e não resistimos em ajudá-la. É interessante notar a quantidade de insetos sobre o seu pelo. As preguiças podem ser hospedeiras de uma grande variedade de artrópodes, que incluem mordedores e sugadores sanguíneos voadores tais como mosquitos e moscas de areia, insetos triatomíneos, piolhos, carrapatos e pulgas. É triste pensar que um dos problemas mais comuns que afeta estes animais são os atropelamentos, morte por queda durante a travessia entre fragmentos florestais e acidentes com fios de alta tensão.  

Mudanças taxonômicas nos Sphingidae brasileiros

Xylophanes soaresi, previamente X. porcus continentalis (© Alan Martin)

Em 2011, a REGUA publicou seu primeiro guia de de campo,  Guia dos Sphingidae da Serra dos Órgãos, Sudeste do Brasil , que descreveu e ilustrou as 110 espécies que podem ser encontradas nessa área. No entanto, desde então, ocorreram uma série de mudanças taxonômicas abordadas e compiladas num artigo abrangente recentemente publicado no European Entomologist (Vol 11, No 3 + 4) por J. Haxaire e C. G. Mielke que fornece a lista mais recente de todas as espécies que ocorrem no Brasil, mas introduzindo também várias espécies novas.

Todas essas espécies foram atualizadas no site Hawkmoths of Brazil , mas de particular interesse para a área da REGUA são:

Uma nova espécie Protambulyx pearsoni foi separada de P. sulphurea e a substitui na Serra dos Órgãos.

Xylophanes alineae, previamente X. porcus continentalis (© Alan Martin)

Uma nova espécie, Manduca exiguus , foi separada de M. contracta e foi registrada para o Estado do Rio de Janeiro, mas que se saiba ainda não encontrada na Serra dos Órgãos.

Manduca paphus é agora reconhecida como uma espécie distinta e foi separada de M. sexta.

Nyceryx nephus foi elevado ao status de espécie com base em um único espécime coletado em Cachoeiras de Macacu.

Isognathus brasiliensis foi separado de I. swainsonii e o substitui na Serra dos Órgãos e sudeste do Brasil.

Xylophanes reussi, previamente X. marginalis (© Alan Martin)

Eumorpha orientis é agora reconhecida como uma espécie distinta, tendo sido separada de E. obliquus .

Xylophanes reussi foi separado de X. marginalis , mas ambos parecem compartilhar a mesma distribuição geral.

Uma nova espécie Xylophanes crenulata foi separada de X. ceratomioides . Acredita-se que apenas X. crenulata ocorra na Serra dos Órgãos.

Duas novas espécies Xylophanes alineae e X. soaresi foram separadas de X. porcus continentalis, sendo ambos encontrados na Serra dos Órgãos.

Aparentemente, é provável que Errinyis ello se dividida também em duas espécies distintas: o tipo que se alimenta principalmente de mandioca chegando a ser praga desta cultura e o tipo que vive na floresta, e todo o complexo grupo do genero Nycerx também está sob análise.

Portanto, eu recomendaria sempre usar o site a partir de agora em vez do livro, mas se você encontrar algum erro no site, por favor nos avise e iremos corrigi-los.

Ithomiini: as borboletas da Mata Atlântica gulosas por plantas toxicas

O mimetismo é um fenômeno muito estendido na Natureza, onde algumas espécies imitam os padrões morfológicos e cromáticos de outras, se beneficiando de alguma forma de proteção em virtude dessa semelhança com o modelo. Habitualmente, este possui alguma característica física ou bioquímica que o torna detestável aos predadores. No caso das borboletas, geralmente trata-se da presença  de substâncias tóxicas (habitualmente alcalóides) e/ou impalatáveis no organismo dos modelos.

Nas Américas existe uma tribo endêmica da subfamília Danainae de Nymphalidae: as borboletas Ithomiini, cerca de 350 espécies – muitas delas apelidadas popularmente de ‘vidrinhos’ devido a transparência de grande parte da superfície das asas – onde a maioria participa de anéis miméticos entre si e com outros lepidópteros, incluindo a subfamília Heliconiinae e algumas mariposas diurnas.

Na maioria dos casos. os compostos químicos envolvidos das borboletas tóxicas de “gosto ruim” (impalatáveis) são incorporados no estágio de larva a partir das plantas onde se alimentam. No caso dos ‘vidrinhos’ as plantas usadas pelas larvas são Apocynaceae em parte (uma fonte compartilhada com a tribo Danaiini) mas a maioria se alimenta de Solanaceae, família botânica onde se incluem legumes populares como tomates, batatas, berinjela e jiló. No entanto, bastantes espécies sequestram esses compostos alcalóides já na fase adulta; especialmente os machos sugam alcalóides das flores e raízes de arbustos, lianas ou arvoretas da familia Asteraceae ou folhas secas em decomposição de Boraginaceae.

Por ocasião do recorrido efetuado em um dos transectos para monitoramento de borboletas (trecho da Trilha Amarela) recentemente roçado para manutenção, pude observar ao longo de uma semana como grupos de várias espécies de ‘vidrinhos’ se congregavam sobre raízes de um arbusto Eupatorium  (Asteraceae) – especialmente no início da manhã e a tardinha – tal como exemplificado na foto. As espécies observadas sequestrando alcalóides dessas raízes expostas foram as seguintes: Episcada striposis, Episcada sylvo, Hypothiris ninonia daeta, Hypothiris euclea lapria, Ithomia agnosia zikani, Ithomia drymo e Pseudoscada erruca.

Um grupo de pelo menos 6 especies de Ithomiini sugando compostos da raiz de uma Asteraceae (Eupatorium sp.) (© Jorge Bizarro)

As árvores da Mata Atlântica: a Braúna (Melanoxylon brauna)

A Braúna em uma das áreas reflorestadas pela REGUA (©Raquel Locke)

A braúna é uma espécie arbórea endêmica da Mata Atlântica, pertencente à família Leguminosae, encontrada no sul do estado da Bahia, Espírito Santo, São Paulo, Minas Gerais e Rio de Janeiro. Seu estado de conservação na categoria “Vulnerável” pela IUCN remete ao uso intensivo da sua madeira compacta e pesada na indústria civil assim como na confecção de instrumentos musicais, cabos de ferramenta, postes e mourões. A braúna é uma espécie semi-decídua, heliófita, encontrada em florestas tanto primárias como em florestas secundárias tardias. Sua dispersão se dá pela ação do vento (anemocórica).  Este exemplar se encontra na área do “Francês”, que são nossos vizinhos e parceiros.

Braúna em flor (©Raquel Locke)

 

Conheça as mariposas perfuradoras de frutas!

A maioria das mariposas se alimentam do néctar de flores e assim se comportam como polinizadoras. Uma outra parte vive poucas horas ou dias e acumulam gordura na fase larvar, pelo que os adultos mal se alimentam,bebendo apenas água. No entanto, vários grupos da família Erebidae (ex-Noctuidae latu sensu + Arctiidae) são frugívoras, se alimentando de frutas maduras em inicio de decomposição. Elas incluem o conhecido e popular gênero Catocala da região temperada setentrional, que podem ser atraídas pincelando purê de frutas sobre cascas e troncos de arvores.

Eudocima sp.  (© Micaela Locke).

Alguns gêneros da subfamília Calpinae se especializaram em perfurar a casca de frutas intactas com a espiritrompa, peça bucal tipica de 99% dos lepidópteros adultos, que neste caso possui uma extremidade pontiaguda e farpada, propiciando que a mariposa possa perfurar a casca da fruta a sorver o suco dela, sendo algumas delas consideradas pestes de pomares de frutas cítricas.

Na nossa região ocorre o colorido gênero Eudocima, de distribuição Pantropical (com especies em todas as regiões tropicais) exemplificado pelo individuo aqui flagrado sobre uma fruta caída no solo.

Finalmente, a titulo de ‘curiosidade’, a Natureza foi um pouco mais alem e as modificações da espiritrompa que possibilitaram a perfuração de frutas intactas, com alguns aperfeiçoamentos, permitiram o aparecimento de algumas especies hematófagas no Sudeste asiático capazes de perfurar a pele de mamíferos para se alimentarem do sangue de animais de grande porte, inclusive o gado local. São as mariposas ‘vampiras’ do gênero CalyptraO tipico nesse gênero asiático é se alimentar da secreção lacrimal desses animais, mas uma meia duzia de especies se especializaram na hematofagia, que nem os pernilongos.

Corujinha-sapo (Megascops atricapilla)

A corujinha-sapo (Megascops atricapilla) fotografada por Adilei Cunha.

A corujinha-sapo (Megascops atricapilla) pertence a familia Strigidae que compreende todas as espécies de corujas do Brasil com exceção da coruja-da-igreja (Tyto furcata). A corujinha-sapo está presente no Sudeste do Brasil, no norte da Argentina e no leste do Paraguay. Segundo a classificação da IUCN sua categoria é de Pouco Preocupante (LC). De hábito crepuscular, como o da maioria das corujas, se alimenta de insetos variados, de roedores, de pequenos mamíferos e de aves de tamanho reduzido. Utilizam cavidades ocas de árvores e ninhos abandonados para nidificar. Estas corujinhas estão associadas com as florestas Ombrófilas densas bem preservadas.

Este registro foi feito por Adilei Cunha, que ouvia o seu canto há alguns dias, próximo à sua casa, decidindo uma noite aventurar-se pela mata à sua procura!

Desafio da Natureza Urbana 2021: Baía de Guanabara, RJ, Brasil.

Micaela, Eric e Nicholas se preparando para o Bioblitz (© Thomas Locke).

Participamos do Desafio da Natureza Urbana 2021: Baía de Guanabara, RJ, Brasil, que durou do dia 29 de abril até o dia 03 de maio. Contamos com a visita do Eric Fisher, que teve um importante protagonismo neste desafio.

O objetivo desta Bioblitz foi registrar a maior quantidade de organismos (animais, plantas, fungos e musgos) possível, além de estarmos fazendo parte de uma DISPUTA mundial, entre mais de 400 cidades e regiões de 40 países dos 5 continentes, em que poderemos mostrar a grande diversidade biológica existente nos ambientes aquáticos (manguezais, lagoas e mar), nas planícies e montanhas (mata atlântica e restinga) e nas áreas urbanas (residências, jardins, ruas, praças, praias, parques e jardins) da região em que estamos inseridos.

Eric e Nicholas em busca de insetos (© Micaela Locke).

Foram feitas cerca de 2.1400 observações, com a participação de 88 entusiastas da Natureza e identificação de 880 espécies até o momento! Não pudemos abrir este evento ao público devido à pandemia, mas não queríamos deixá-lo passar em branco tampouco. Já contamos com ótimas observações e estamos entusiasmados em continuar praticando a ciência cidadã, através do Inaturalist.

 

Link do projeto: https://www.inaturalist.org/projects/desafio-da-natureza-urbana-2021-baia-de-guanabara-rj-brasil

As Borboletas Malaquita

Siproeta stelenes meridionalis (Fruhstorfer, 1909)

Siproeta stelenes  (© David Geale).

Por alguma razão, o verde não é uma cor comum ou popular entre as borboletas neotropicais. Ao contrário de outras regiões tropicais do Velho Mundo, ocorrem apenas uma dúzia  de borboletas esverdeadas nos trópicos americanos (alguns licenídeos dos gêneros Cyanophrys, Evenus, Arcas, Erora, alguns papilionídeos e Nessaea).  entre elas o exemplo mais chamativo é a enorme borboleta verde malaquita, com linhas marrom e grandes asas quadradas de margens denteadas. Esta borboleta é uma imitação dos heliconídios (borboletas de asa longa) Philaethria wernickei e P. dido, das quais virtualmnte se distingue apenas pelo maior tamanho, asas menos alongadas e a margem  externa da asa posterior fortemente serrilhada com 3 pequenas indentações.

Philaethria wernickei  (© Antonio Lopes).

É uma espécie comum encontrada em uma vasta área das Américas do sul do Texas, Flórida e das Índias Ocidentais até a Bolívia, Argentina, Paraguai e sul do Brasil. Os adultos são espécies típicas de floresta aberta, encontradas desde o nível do mar até 1.500 metros em habitat florestal úmido ou sazonalmente perturbado, como clareiras, margens de rios, estradas, bordas, vegetação secundária e até pomares ou jardins onde muitas espécies herbáceas de Acanthaceae prosperam (Blechum , Justicia, Ruellia). Os adultos são atraídos por flores e frutas podres, eles costumam repousar e se ensolarar na folhagem mais baixa em trilhas, estradas ou jardins, e as fêmeas patrulham pequenos trechos desse habitat em busca de suas plantas hospedeiras para colocar os ovos de onde eclodem as lagartas da próxima geração. Estas são preto-oliva com tubérculos rosados ​​e brancos, lembrando muito as lagartas tóxicas de Parides e Battus (Papilionídeos). As pupas são verde-limão claras com alguns espinhos curtos.

Miltonia moreliana

Miltonia moreliana em flor no Jardim de Orquídeas da REGUA (© Micaela Locke).

A Miltonia moreliana é uma linda orquídea  que está em flor no nosso Jardim da Mata Atlântica. Ela pode ser encontrada  em áreas de mata secundária, a partir de 300 metros de altitude. O gênero Miltonia, presente na América do Sul, possui nove espécies no Brasil, sendo que sete delas são encontradas na Serra dos Órgãos. A Miltonia  moreliana requer abundante luminosidade, teor de umidade moderado e ventilação.

Quando não é possível identificar uma espécie de alguma orquídea nativa de imediato, recorremos ao auxílio de especialistas, como a Maria do Rosário de Almeida Braga, ou também consultamos a fantástica publição “Serra dos Órgãos: Sua História e Suas Orquídeas” que tem como autores  David MillerRichard WarrenIzabel Moura Miller (também fotógrafa) e Helmut Seehawer (colaborador).