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Macuco

A observação de aves exige muita atenção e resistência física de qualquer observador que se propõe a aventurar-se pela REGUA. O clima quente e úmido, característico da Mata Atlântica, as trilhas sinuosas e íngremes, somados à timidez natural dos pássaros, torna este hobby um verdadeiro desafio. Até a serrapilheira da floresta, composta por restos de plantas e acúmulo de material orgânico vivo em diferentes estágios de decomposição, pode atrapalhar esta atividade, pois o ruído ao se pisar neste material, denuncia a presença de alguém nas trilhas. Uma das aves mais difíceis de ser avistada é o Macuco (Tinamus solitarius), uma grande ave terrestre que foi historicamente perseguida e estimada pela sua carne. O Macuco é endêmico da Mata Atlântica, se alimenta principalmente de insetos e é caracterizado como “Quase ameaçada” pela Lista Vermelha de Espécies Ameaçadas da IUCN.

Embora a caça tenha diminuído significativamente na REGUA, escuta-se ocasionalmente o canto desses pássaros na floresta, mesmo assim sendo bem difícil avistá-lo. Provavelmente é mais fácil encontrar um ninho no solo com alguns ovos verde-esmeralda, do que os próprios pássaros.

Adilei da Cunha, em uma das suas caminhadas, contou seu entusiasmo ao ouvir um adulto vocalizando e, ao tentar seguí-lo, encontrou apenas um filhote tentando se camuflar entre as folhas. Como estava bem escondido, foi difícil capturar uma imagem nítida. Foi um momento de alegria para Adilei, já que raramente vê esses pássaros na natureza. Esse é um bom sinal de que os esforços da REGUA para a proteção e conservação das florestas, estão contribuindo para o aumento da população de muitas espécies da fauna local.

Filhote de Macuco camuflado entre os galhos e folhas secas (© Nicholas Locke).

Pesquisa com Anuros em poças artificiais

Fragmento selecionadopara a conduçãodoexperimento (© Micaela Locke).

O João Souza está desenvolvendo seu trabalho de campo na REGUA e seu projeto de mestrado analisa, de forma experimental, como áreas fragmentadas podem afetar a produção secundária de girinos em uma área de matriz no bioma de Mata Atlântica. Essa pesquisa pretende demonstrar a importância de árvores isoladas na manutenção de processos ecossistêmicos naturais. Como parte desses processos ecossistêmicos está o fluxo de energia (entrada e saída) – representada pela luz solar, que não é reciclada, – e pela matéria, biomassa presente em todos os níveis tróficos, que é continuamente reciclada.  

Girino coletado que será levado para o laboratório para ser identificado (© Micaela Locke).

Esses fluxos fazem com que ocorram processos de produção no ambiente. Essa produtividade é classificada em Produtividade Primária Bruta (PPB), Produtividade Primária Líquida (PPL) e Produtividade Secundária Líquida (PSL).

A produtividade primária bruta corresponde ao quanto de matéria orgânica é sintetizada pelos seres produtores em determinada região em certo período. Quanto maior a taxa de fotossíntese, maior será a produtividade primária bruta. A luz, o gás carbônico, a água, a temperatura e os sais minerais são alguns fatores que interferem na fotossíntese. Já a energia contida na biomassa dos organismos autotróficos, medida durante um determinado intervalo de tempo, corresponde à produtividade primária líquida. 

O aluno JoãoSouza realizando a coleta de girinos (© Micaela Locke).

 A produtividade secundária líquida refere-se ao total de biomassa armazenada no corpo de um herbívoro, em determinado intervalo de tempo, correspondendo à energia que ele conseguiu absorver dos alimentos que ingeriu – já contabilizadas as taxas de gasto de energia de seu metabolismo. 

Nesse sentido, o desenvolvimento da pesquisa do João pode apresentar importantes resultados que demostrem a importância da conservação de nossas áreas de vegetação para manutenção de um importante processo ecossistêmico natural – a produção secundária, e principalmente poder entender como o grupo dos anuros, que é o táxon de vertebrados com maior número de espécies ameaçadas, é afetado pela perda de vegetação. 

Uma Suindara fazendo ninho próximo à sede da REGUA.

Desconfiados de que toda noite estávamos recebendo a visita de algum predador noturno, finalmente descobrimos o ninho de uma misteriosa coruja! Conseguimos avistar no alto de um Pau d’alho, próxima à sede da REGUA, uma Suindara (Tyto furcata), também conhecida como Coruja-de-Igreja, que está nidificando em um oco desta mesma árvore.   

Suindara atenta aos movimentos e ruídos ao seu lado (© Nicholas Locke).

Esta espécie ocorre em todas as Américas, exceto nas regiões densamente florestadas da região amazônica. Tem preferência por habitar áreas abertas e semiabertas e é mais ativa no crepúsculo e à noite, podendo ser vista voando baixo ou em postes e cercas ao longo da estrada. Já de dia, dorme ou nidifica em torres de igrejas, sótãos de casa e ocos de árvores.  

Machos e fêmeas são muito parecidos, porém o macho pode ter o ventre branco enquanto a fêmea pode apresentar o peito mais manchado (creme a marrom-claro). Uma característica inconfundível da espécie é o formato do disco facial; forma de coração de cor branca com bordas marrom-ferrugem.   

Sua principal fonte de alimentação são os roedores e os invertebrados, e chega a caçar morcegos com menos frequência, assim como pequenos marsupiais, anfíbios, répteis e aves. Estudos mostraram que no estômago ocorre a separação dos pelos, ossos e outras partes não digeríveis, as quais formam pelotas, que posteriormente serão regurgitadas durante seu período menos ativo.  

Como boa coruja, a Suindara apresenta excelente visão noturna, sendo capaz de identificar presas mesmo em total escuridão. Mesmo ao som de pequenos ruídos, a sua excelente audição a ajuda a identificar suas presas escondidas na vegetação. Uma importante adaptação diz respeito às suas penas, que são macias e serrilhadas, permitindo um voo silencioso. Ela é uma excelente caçadora! 

Suindara (Tyto furcata) fazendo seu ninho no oco de um Pau d’álho (© Nicholas Locke).

Pesquisa com Coleóptera na REGUA

Ederson e Beatriz conduzindo a sua pesquisa nos alagados da REGUA (© Micaela Locke).

A pesquisa científica além de contribuir para a geração do conhecimento local, auxilia a comunidade científica a preencher diversas lacunas e áreas do saber que ainda devem ser investigadas.

Esta semana recebemos a visita de dois pesquisadores, o Ederson e a Beatriz, da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), que estão buscando larvas da espécie Amalactus carbonarius, família dos Curculionídeos, mais conhecidos como gorgulhos.

 

 

Gorgulho encontrado na Taboa (Typha domingensis).

É o primeiro registro desta espécie colonizando as Taboas (Thypa domingensis), que são encontradas nos alagados da REGUA.

As Taboas se espalham rapidamente no ambiente natural, porém é importante manter o equilíbrio entre a área que elas ocupam e a área em que podem ser abrigo para diversos insetos!

O Socó-boi nos alagados da REGUA.

O Socó-boi predando um peixe do gênero Gymnotus (© Claudia Bauer).

O Socó-boi (Tigrisoma lineatum), comumente avistado nos alagados da REGUA,  é uma ave da ordem Pelecaniformes, família Ardeidae. Seu nome em tupi-guarani, Taiaçu, significa tai = riscado e açu = grande, característica física dos indivíduos jovens (plumagem amarelo-clara com faixas transversais negras, garganta e ventre brancos e bico relativamente curto).

O peixe predado, do gênero Gymnotus, é capaz de liberar pequenas descargas elétricas, muitos vezes só captadas por aparelhos sensíveis (© Claudia Bauer).

É uma espécie que não apresenta dimorfismo sexual, e ao alcançar dois anos de idade, macho e fêmea passam a ter pescoço castanho com uma faixa branca vertical na frente e manto pardo-acinzentado, manchado de acanelado, com um bico bastante longo. Vive em áreas úmidas, como brejos, pântanos, escondendo-se neste tipo de ambiente ribeirinho, ou mesmo em florestas. É comum vermos os Socó-bois em dias chuvosos e escuros, encontrando-se à vontade tanto com outras espécies diurnas, quanto noturnas.

É uma ave com hábitos solitários, que constrói seus ninhos no alto de árvores e arbustos, sendo composto de uma grande plataforma de gravetos. Durante a época de reprodução o adulto emite uma forte voz, que lembra o esturro da onça pintada ou o mugir de um boi. Quando se sente ameaçado, permanece imóvel até voar, indo encontrar abrigo no alto das árvores. Anda vagarosamente, ficando muitas vezes imóvel à espreita, e captura as suas presas dando-lhes golpes certeiros, com seu bico afiado. Come crustáceos, répteis, anfíbios, peixes e insetos.

Estes registros foram feitos pela bióloga Claudia Bauer, amante e renomada ornitóloga, membra do Clube de Observadores de Aves (COA) do Rio de Janeiro. Recentemente sua grande paixão tem sido a fotografia!

 

 

 

© Claudia Bauer

© Wikiaves

Miltonia moreliana

Miltonia moreliana em flor no Jardim de Orquídeas da REGUA (© Micaela Locke).

A Miltonia moreliana é uma linda orquídea  que está em flor no nosso Jardim da Mata Atlântica. Ela pode ser encontrada  em áreas de mata secundária, a partir de 300 metros de altitude. O gênero Miltonia, presente na América do Sul, possui nove espécies no Brasil, sendo que sete delas são encontradas na Serra dos Órgãos. A Miltonia  moreliana requer abundante luminosidade, teor de umidade moderado e ventilação.

Quando não é possível identificar uma espécie de alguma orquídea nativa de imediato, recorremos ao auxílio de especialistas, como a Maria do Rosário de Almeida Braga, ou também consultamos a fantástica publição “Serra dos Órgãos: Sua História e Suas Orquídeas” que tem como autores  David MillerRichard WarrenIzabel Moura Miller (também fotógrafa) e Helmut Seehawer (colaborador). 

Pesquisa na REGUA

Dentre os poucos estudantes que visitaram a REGUA no ano atípico de 2020, em que as saídas de campo foram suspensas, está um grupo muito especial da Universidade Estadual do Rio de Janeiro (UERJ), do laboratório de Ecologia de Rio e Córregos. O tema de pesquisa da doutouranda Beatriz Ferreira, busca avaliar se a forma de manejo de áreas de pasto, com árvores isoladas, diminui o efeito do desmatamento sobre o papel dos girinos de anuros (sapos, pererecas e rãs) em poças. Anuros usam locais com água acumulada para reprodução, tornando os girinos essenciais para a manutenção deste tipo de ambiente. A retirada da floresta afeta diretamente o desempenho dos Anuros.  

Nas saídas de campo, dois outros estudantes acompanharam a Beatriz, o Orlando de Marques Vogelbacher e o Jeferson Ribeiro Amaral, que registrou alguns dos momentos vivenciados por eles. Ao retratar uma simples saída de campo, algumas imagens realmente são capazes de tirar o nosso fôlego! Isso mostra, que além da importância da pesquisa, o quanto a dinâmica da natureza está presente ao nosso redor. Agradecemos aos estudantes pelo seu empenho e compartilhamento de lindas imagens!

Uma Coruja-buraqueira cuidando do seu ninho (© Jeferson Ribeiro Amaral).

 

Saíra-sete-cores na área comum da REGUA (© Jeferson Ribeiro Amaral).
Curica ou Papagaio-do-mangue (© Jeferson Ribeiro Amaral).

 

 

A Dahlstedtia

Em uma caminhada por uma das áreas da REGUA, foram vistas as plantas do gênero Dahlstedtia que ocorrem exclusivamente no bioma Mata Atlântica, nos estados de Rio de Janeiro, Paraná, Santa Catarina e Rio Grande do Sul.

O gênero é constituído por duas espécies: D. pinnata e D. pentaphylla, embora muitos autores as considerem monotípicas. Apresentam porte arbóreo-arbustivo, inflorescências grandes, tubulosas e vistosas.

Conhecida como “Timbo”, suas flores são muito visitadas por beija-flores, que as polinizam. Sua casca e raíz esmagadas têm a capacidade de atordoar e asfixiar os peixes, prática utilizada no passado pelos povos autóctones da região, ao pescar.

Dahlstedtia em flor (© Raquel Locke).

Bosques da Memória

Começou em meados de dezembro de 2020 a Campanha “Bosques da Memória”.
A ideia é plantar árvores e recuperar florestas, como um gesto simbólico em homenagem às vítimas da COVID-19 e em agradecimento aos profissionais de saúde no Brasil.

Campanha Bosques da Memória.

​Essa campanha é uma promoção conjunta da Rede de ONGs da Mata Atlântica – RMA, da Reserva da Biosfera da Mata Atlântica – RBMA e do PACTO pela Restauração da Mata Atlântica. É desenvolvida de forma participativa e colaborativa, e está aberta às pessoas e instituições interessadas. Em todo o país, já são 21 iniciativas aderindo a esta campanha.

Viveiro de produção de mudas (©Micaela Locke).

É também um espaço de divulgação de outras iniciativas que tem o mesmo objetivo, que além de buscar a transformação desse momento de tristeza e devastação, quer trazer esperança à Mata Atlântica e alertar sobre os impactos das mudanças climáticas. A campanha também marca o início da Década da Restauração de Ecossistemas 2021-2030 declarada pela ONU.

Defesa de monografia

Nesta quarta-feira (09/12) as 9:00 horas, o aluno Rodrigo Ferreira Gomes defenderá sua Monografia intitulada: estudo de tempo, movimento e comportamento em campo de espécies arbóreas oriundas de mudas produzidas em tubetes e sacos plásticos.  Rodrigo é orientado pelo professor Paulo Sérgio Leles, da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (UFRRJ), que vem conduzindo estudos relacionados ao aprimoramento das técnicas silviculturais para formação de povoamentos florestais visando a restauração florestal, com ênfase em estudos sobre controle de plantas daninhas e uso de biossólido de lodo de esgoto como adubação de plantio. Muitos dos alunos do Professor Leles fazem os seus experimentos aqui na REGUA.

O link para o seminário é:  https://meet.google.com/ccq-zyjo-bov

Rodrigo realizando trabalho em campo (©Paulo Sérgio Leles).