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Uma pesquisadora da França na UFRJ

Camiille dentro do cercado com as bromélias. (© Vinícius Farjalla)

“Meu nome é Camille Bonhomme. Eu sou uma estudante francesa fazendo doutorado em Ecologia na UFRJ no Rio de Janeiro, visando o estudo das condições que favorecem a resistência e a resiliência dos ecossistemas tropicais de água doce às secas prolongadas.
Há dois meses venho realizando um experimento na Reserva Ecológica de Guapiaçu. Eu estou usando plantas de bromélias como ecossistemas aquáticos em miniatura hospedando comunidades de invertebrados (principalmente larvas aquáticas se tornando terrestres na fase adulta) nos tanques de água das axilas das suas folhas. Nesses microcosmos, a fonte básica de alimentos são as folhas mortas que caem nesses tanques das árvores ao redor. Essas folhas são decompostas por detritívoros, como larvas de mosquitos (Diptera: Culicidae), que por sua vez são comidas por predadores, especialmente larvas de libélulas e lavandeiras (Insecta: Odonata).

Aqui estou pesquisando a relação entre a quantidade de alimentos disponíveis no ecossistema e a capacidade da comunidade associada se recuperar de um evento de seca. Para tanto, montei dois grupos de bromélias, uma com pouca e outra com grande quantidade de insumos de folhas mortas:

  • Primeiro, avaliei se a quantidade de alimento disponível era determinante para a composição e diversidade da comunidade. Deixei as bromélias ser colonizadas por invertebrados aquáticos e descobri que as bromélias que contêm mais alimentos hospedavam comunidades mais ricas e diversificadas do que as bromélias com poucos insumos de folhas mortas.
  • a segunda parte do experimento consistirá em avaliar a recuperação dessas comunidades de invertebrados diante de uma seca, para ver se ela é afetada pela quantidade de recursos previamente disponíveis.

A simulação de uma seca que afeta todo um ecossistema pode constituir um grande desafio quando se consideram lagos ou córregos, mas é bastante simples nas bromélias. Basicamente, cada planta é abrigada com uma tenda de plástico para evitar as chuvas e seus tanques acabam secando naturalmente. No final deste período de ‘seca’, se retiram os abrigos de modo que as chuvas terminarão enchendo as plantas novamente.

Bromélias durante o ‘evento de seca’ induzido, com ‘chapéu de chuva’ protetor impedindo que a água da chuva penetre nos tanques.  (©Camille Bonhomme)

Atualmente, estou na fase de acompanhamento da recuperação das comunidades de invertebrados das bromélias ao longo do tempo, após o evento de seca induzida, amostrando e identificando regularmente os organismos vivendo em seus tanques.

Minha hipótese esperada é que as folhas mortas favoreçam realmente a recuperação das comunidades afetadas pela ‘seca’, criando refúgios úmidos que irão beneficiar a sobrevivência de invertebrados in situ e atrair mais colonizadores de outras bromélias na vizinhança depois do término do evento de seca. Para dissociar esses dois mecanismos potenciais, metade das plantas é coberta com uma rede mosquiteira, evitando a recolonização e, assim, isolar o “efeito de refugiado” das folhas ”.